Yogaterapia e Yoga: distinção entre práticas e o que esperar de cada uma delas.

Ana Hayes

A yogaterapia é o processo de capacitar os indivíduos a prosseguirem em direção à melhoria da saúde e do bem-estar, através da aplicação dos ensinamentos e das práticas do yoga.   

International Association of Yoga Therapist (IAYT, 2012)

yogaterapAna

As práticas de yoga, nas suas várias formas utilizam várias técnicas tais como asana, pranayama e meditação, tornaram-se bastante populares no ocidente nas últimas décadas. Um estudo publicado em 2016 refere que, só nos Estados Unidos, o número de praticantes de yoga cresceu de 20.4 milhões em 2012, para mais de 36 milhões,  em 2016.

O número de praticantes cresce rapidamente e as práticas tornam-se cada vez mais conhecidas. Já a yogaterapia não é um campo tão bem conhecido. Este texto tem por objetivo abordar a yogaterapia, e como é que esta prática difere da prática de yoga.

Essencialmente, a yogaterapia é a aplicação de práticas de yoga para aliviar as condições de saúde física e mental, com o objetivo de promover o autocuidado e incentivar o bem-estar geral. Enquanto que a prática de yoga, em geral, visa cultivar o corpo e a mente e, portanto, tem potencial terapêutico, na yogaterapia fazemos uso de práticas específicas de yoga, e dos seus benefícios conhecidos, para ajudar a aliviar, ou recuperar de, doenças do foro físico e mental.

O termo moderno “yogaterapia” foi cunhado por Swami Kuvalyananda na década de 1920. Kuvalyananda acreditava ser possível medir as mudanças físicas e fisiológicas que ocorrem através da prática de yoga. A sua paixão trouxe investigadores estrangeiros para a Índia para estudar os efeitos do yoga, criou uma revista de pesquisa científica de yoga Yoga Mimansa, uma instituição de Yoga (o Kaivalyadham Institute, em Lonavla), e um novo campo de estudo: a yogaterapia.  Swami Kuvalyananda tornou possível a aplicação dos efeitos específicos do yoga às condições médicas.

Hoje em dia, a yogaterapia tornou-se tão popular, particularmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, que muitos médicos a apoiam. Várias revistas médicas revelam pesquisas sobre os benefícios do yoga. Da mesma forma, muitos dos que trabalham no campo da saúde mental atualmente recomendam a prática de yoga aos seus clientes e pacientes. 

A evidência científica que suporta a aplicação terapêutica do yoga é tão grande que, nos EUA, o cardiologista Dr. Dean Ornish desenvolveu uma intervenção baseada no yoga, que pode reverter as doenças cardíacas. O seu programa foi tão bem sucedido que agora está coberto pelo seguro de saúde! Da mesma forma, no Reino Unido, o NHS (o Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido) também se está a tornar cada vez mais consciente dos potenciais benefícios da yogaterapia, tanto para os seus funcionários, como para os pacientes, recomendando o British Council for Yoga Therapy na sua categoria de Terapias Complementares e Alternativas (Complementary and Alternative Therapies).

 “A yogaterapia é um processo de autoempoderamento, onde o indivíduo, com a ajuda do yogaterapeuta, implementa uma prática de yoga personalizada, que não aborda apenas a doença de forma multidimensional, mas também alivia seu sofrimento de maneira progressiva, não invasiva e complementar. Dependendo da natureza da doença, a yogaterapia pode não ser somente preventiva ou curativa, podendo também servir para gerir a doença, ou para facilitar a cura da pessoa a todos os níveis.” TKV Desikachar & Kausthub Desikachar

Outra definição contemporânea é dada pelos fundadores do conhecido Krishnamacharya Healing and Yoga Foundation, TKV Desikachar & Kausthub Desikachar. Esta definição inclui termos comuns a muitas outras, tais como “empoderamento”, “a todos os níveis” (físico, psicológico, emocional e espiritual) e “aliviar o sofrimento”. A yogaterapia engloba os oito membros (angas) do yoga para melhorar a consciência do cliente relativamente a como as suas escolhas de estilo de vida afetam todos os aspetos da sua vida, e como consequentemente levam ao sofrimento. Apesar de cada um dos oito membros (yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi) ser uma importante ferramenta para o yogaterapeuta, os primeiros dois angas – yama (regras de conduta do indivíduo com a sociedade) e niyama (regras de conduta interna com ele mesmo) – são talvez os mais importantes para que existam mudanças efetivas no estilo de vida do cliente. 

“ Muitos yogaterapeutas irão avaliar os yama e niyama do cliente como parte da sessão inicial, uma vez que eles formam a base da yogaterapia. A avaliação dos yamas e niyamas podem guiar o yogaterapeuta em direção às alterações de estilo de vida, necessárias para uma vida onde o cliente pode transformar o stress, desenvolver relações saudáveis, lidar com contratempos e contrariedades, e eventualmente atingir a calma mental que leva a um menor sofrimento e à autorrealização.” Staffan Elgelid & Erin Byron (Yoga Therapy, Defined, 2015).

yogaterapia2

Quais são as diferenças entre uma sessão de yogaterapia e uma aula de yoga?
Embora o yoga como prática seja terapêutico, existem diferenças significativas entre um professor de yoga e um yogaterapeuta, e entre uma aula de yoga (em grupo ou individual), e uma sessão de yogaterapia.É importante perceber quais são essas diferenças, tanto para o professor ou terapeuta, assim como para o aluno ou cliente. Vamos olhar para esta distinção a partir das perspectivas do aluno (ou estudante) de yoga, o cliente de yogaterapia, o professor de yoga, o yogaterapeuta, uma aula de yoga e uma sessão de yogaterapia.


O estudante ou o aluno de yoga
 Existem muitas razões pelas quais as pessoas frequentam aulas de yoga. Para tomar uma decisão mais acertada sobre o tipo de prática que procuram, os alunos devem analisar conscientemente as suas intenções ao procurar aulas de yoga, instrução em yoga (fazer um curso de instrutor, por exemplo) ou yogaterapia. O yoga fornece as ferramentas para um processo de autoconhecimento e de autodesenvolvimento (Kraftsow, 1999). Contudo, o público em geral ainda vê o yoga como uma forma de exercício físico. Na maioria das vezes, os alunos vão a uma aula de yoga para se exercitarem, numa comunidade que compartilhe da mesma opinião, com os mesmos objetivos. Aqueles que entendem que o yoga é mais do que um exercício físico podem procurar aulas que permitam explorar outros aspectos da prática, como pranayama ou meditação. Independentemente da intenção, existem sempre benefícios em aprender e em praticar yoga.

O cliente, ou paciente, de yogaterapia
Quando os clientes procuram um yogaterapeuta, ou um grupo com práticas terapêuticas, geralmente não vêm para aprender yoga e sim para obter ajuda ou alívio de algum sintoma físico ou mental, ou problema de saúde que os incomode, que diminua a sua qualidade de vida. Na maioria dos casos as práticas são focadas nas suas condições, e as técnicas de yoga podem ajudá-los a melhorar, ou a recuperarem a sua condição. Ainda assim, existem diferenças entre uma sessão de yogaterapia e práticas terapêuticas de grupo, sendo a maior o tipo de relação existente entre professor ou terapeuta, e aluno ou cliente. Um yogaterapeuta irá desenvolver uma relação terapêutica com o cliente, baseada na confiança entre duas pessoas, na segurança, na existência de fronteiras e fundamentada por princípios éticos pois “A relação terapêutica é a base de tudo o que se segue” (Lasater, 2008:7). Na relação [terapêutica] existe o importante princípio de mutualidade, onde o terapeuta e o cliente permanecem na mesma plataforma de poder. Como yogaterapeuta, provavelmente sabemos um pouco mais sobre yoga do que o cliente. No entanto, não somos detentores de mais poder. Não é possível obrigar o cliente a praticar, nem a ouvir-nos, nem a melhorar. O cliente tem que ser tão importante quanto o terapeuta nesta relação. “O que muda as pessoas é quando elas decidem mudar” (ibid:7), como tal o nosso trabalho como terapeutas é desenvolvermos uma relação de igualdade com o cliente e criar um ambiente que inspire à escolha da aprendizagem.
Existem diferenças substanciais entre os estilos de ensino de yoga. Alguns instrutores concentram-se principalmente na instrução, orientando os alunos nas suas práticas e ajudando-os a praticar corretamente. O foco da instrução pode variar entre asana, o pranayama e a meditação, mas fundamentalmente os instrutores que usam este estilo de ensino irão guiar os alunos na sua prática. Outros instrutores procuram educar os seus alunos sobre como praticar, em vez de apenas orientar a prática em si. Este estilo de ensino capacita os alunos a orientar sua própria experiência, seja praticando sozinhos ou em grupo. Em ambos os casos, os bons professores são capazes de escolher práticas adequadas que vão ao encontro dos interesses e capacidades dos seus alunos. Quer o seu estilo seja instrutivo ou educativo, os instrutores de yoga concentram-se em ensinar os vários métodos de yoga de maneira correta e apropriada.


O yogaterapeuta
Em vez de se concentrarem exclusivamente em métodos e práticas de yoga, os yogaterapeutas concentram-se fundamentalmente nas necessidades dos seus clientes. O seu trabalho é entender por que é que os clientes os procuraram e determinar o que pode ser feito fazer para os apoiar. Para os ajudar no seu trabalho, os yogaterapeutas são treinados para avaliar os clientes por meio de ouvir, questionar, observar e tocar apropriadamente. Os yogaterapeutas procuram maneiras de ajudar os seus clientes a reduzir ou gerir os seus sintomas, melhorar a sua função, e ajudá-los nas suas atitudes em relação às suas condições de saúde. Para tal, é essencial que os yogaterapeutas tenham uma correta e apropriada compreensão do cliente ao nível de todos os kosha (níveis do ser). Depois de avaliar os clientes, os yogaterapeutas estabelecem metas apropriadas (estabelecendo prioridades e objetivos), desenvolvem uma intervenção prática e ensinam os clientes a praticar esse plano em casa. Nesse sentido, os yogaterapeutas escolhem as técnicas de yoga em relação a como elas beneficiarão especificamente os clientes.
Existe outro ponto de grande importância, que distingue um yogaterapeuta de um instrutor de yoga: o nível de formação. Para ser um yogaterapeuta certificado é necessário fazer formação específica. Um instrutor de yoga experiente não é um yogaterapeuta. Para ser qualificado como yogaterapeuta na Europa é necessário ser um professor de yoga experiente, bem como completar um mínimo de 500 horas de formação. Nos Estados Unidos, a entidade certificadora de yogaterapeutas (International Association of Yoga Therapists, IAYT) exige um mínimo de 1000 horas de formação, além do grau de instrutor de yoga.

 A aula de yoga
Os instrutores de yoga podem oferecer uma variedade de aulas de yoga, incluindo aulas para indivíduos ou grupos de pessoas com condições específicas. Exemplos comuns incluem yoga para grávidas, yoga para dores de costas, yoga para sobreviventes de cancro, entre outras. Nessas aulas, os instrutores de yoga experientes devem saber sobre a patologia ou condição, bem como as contraindicações para trabalhar com pessoas que têm essas condições. A intenção neste tipo de aula é ensinar os alunos a praticar yoga, respeitando as suas condições de saúde.

A sessão de yogaterapia
A intenção muda em sessões de yogaterapia para indivíduos, ou grupos, com condições específicas. Depois de uma avaliação adequada, os yogaterapeutas concentram-se nos sintomas específicos que incomodam os seus clientes, e identificam métodos para ajudá-los a lidar com esses sintomas. Pode consistir em ajudar clientes na gestão da dor, da fadiga, da insónia, etc. Além disso, o papel do yogaterapeuta é capacitar (empoderar) os seus clientes a assumirem um papel ativo no seu autocuidado. O trabalho do yogaterapeuta é menos o de ensinar técnicas de yoga e mais o de ajudar os clientes a superarem os seus desafios e obterem a sua independência. 

Na primeira sessão, o yogaterapeuta geralmente pede ao cliente para preencher um formulário de saúde, onde são mencionadas as razões pelas quais a yogaterapia é procurada, bem como informação médica relevante. Nesta sessão, serão também feitas algumas avaliações, nomeadamente postural, respiratória e de movimento. Deve ser salientado que não cabe ao yogaterapeuta fazer qualquer tipo de diagnóstico médico. É também feita uma entrevista onde são discutidas as prioridades e objetivos para o plano terapêutico. O yogaterapeuta irá então desenhar uma prática apropriada às necessidades e temperamento do cliente, podendo incluir técnicas de respiração, posturas, meditação, técnicas de relaxamento, yoga nidra ou a promoção de mudanças comportamentais, que o cliente deverá praticar em casa. Nas sessões subsequentes os resultados desta prática serão avaliados, tanto a nível físico, energético, mental como emocional, sendo observado se os objetivos foram atingidos. Novas práticas podem ser desenhadas, consoante os efeitos e benefícios observados.

“É extremamente importante que os profissionais de yoga – sejam professores ou yogaterapeutas – sejam claros sobre a intenção e a orientação de seu trabalho, que sejam honestos sobre o seu nível de treino e compreensão e que sejam realistas sobre as suas habilitações. Embora o ensino do yoga e da yogaterapia sejam profissões válidas e valiosas, elas são diferentes.” Kraftsow, G. (2014)

 É importante que nós, como comunidade de yoga, nos tornemos claros sobre essas distinções. 
O mundo precisa tanto de instrutores de yoga quanto de yogaterapeutas visto que todos os indivíduos, alunos e clientes, detentores de um corpo e de uma mente, beneficiam de práticas que levem à união entre ambos. Como instrutora de yoga e como yogaterapeuta, estou consciente da forma como o yoga, quando ensinado e praticado de uma forma segura e apropriada, beneficia e melhora a saúde física e mental de alunos e de clientes. O contexto da prática pode variar, seja ele o de ensino ou de terapia, no entanto o objetivo é comum: apoiar a regulação e a resiliência do complexo sistema de corpo e mente, pelo uso de um extenso conjunto de ferramentas oferecidas pelo yoga.

Referências
HOROVITZ, E. & ELGELID, S. (2015). Yoga Therapy: Theory and Practice. New York: Routledge.
KRAFTSOW, G. (1999). Yoga for Wellness. New York: Penguin Compass.
KRAFTSOW, G. (2014). International Journal of Yoga Therapy – No. 24 (2014).
LASATER, J. (2008). The Ethics of Yoga Therapy. International Journal of Yoga Therapy – No. 18 (2008).
MCCALL, T. (2007). Yoga as Medicine. New York: Bantam Dell.