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Yogaterapia | Literatura e Evidência Científica

Yogaterapia | Índice do artigo

O panorama do yoga na Índia

Este artigo é sobre yogaterapia. No entanto, expandimos a perspetiva do texto ao incluir o panorama da Índia, berço do yoga. 

A regulamentação do yoga em Portugal, mas sobretudo na Índia, afastou-se do desporto. Neste país, o yoga foi praticado pelos sábios antigos, ao longo de milénios. A popularidade do yoga é grande e a integração entre antiguidade e modernidade é corroborada pelos organismos indianos, públicos e privados. O pingue pongue do yoga, entre Oriente e Ocidente, estabeleceu novas prioridades nas práticas do yoga. As grandes escolas indianas de Kaivalyadhama, Santa Cruz Institute e Svyasa foram pioneiras da nova forma de yoga: a yogaterapia ou yogachikitsa. Não se trata propriamente de um novo estilo de práticas, mas tão somente a procura de uma cientificidade para o yoga que passa pela aplicação das práticas ancestrais numa perspetiva terapêutica e em contexto medicalizado.

O objetivo do partido do governo, o BJP, liderado por Narendra Modi, é divulgar na Índia e no mundo a tradição ancestral e cultural do yoga. Foi criado o ministério AYUSH, que regula e supervisiona as diversas medicinas alternativas. Na sequência da instituição do dia mundial do yoga, no ano de 2015, o AYUSH e o Quality Council of India criaram estruturas e um esquema favorável à regulamentação de competências e certificação dos profissionais de yoga. O programa é de adesão voluntária e não criou qualquer atrito nas comunidades yoguicas locais. Lançado a 22 de junho desse ano, o programa proporcionou incentivos e benefícios aos profissionais, a saber: viagens no dia mundial do yoga; inclusão dos profissionais certificados na página internet do ministério AYUSH; oportunidades de emprego em escolas e colégios públicos e em outras instituições governamentais; e oportunidades de recrutamento no estrangeiro. O programa incluiu a produção de manuais, elaborados por um conselho consultivo que integrou os principais líderes indianos do yoga. Foram criadas quatro categorias de competência e adotados critérios internacionais de qualidade, em particular a norma ISSO/IEC 17024: 2012.

Atualmente, os 4 níveis são: instrutor, professor, mestre e acharya. Os exames de acesso à profissão podem ser efetuados à distância e online a partir de qualquer lugar do mundo. O esquema de certificação estabelece níveis de conhecimento e níveis de competências técnicas. Estes níveis estão sujeitos a uma pontuação e classificação. Por exemplo, no grau de instrutor, o conhecimento teórico tem um valor proporcional de 30%, enquanto que as competências técnicas valem 70%. A dimensão do conhecimento divide-se em introdução ao yoga e às práticas yoguicas, e introdução à psique e ao corpo humano.

Níveis de qualificação profissional

Quanto à competência técnica, o nível inicial inclui explicações e práticas da saudação ao sol, purificações orgânicas, posturas do yoga, técnicas de respiração e meditação, transmissão dos ensinamentos aos alunos e outras competências do instrutor. Quanto ao grau de professor de yoga, este tem uma componente de 50% de conhecimentos teóricos e 50% de competências técnicas. A parte teórica engloba os princípios fundamentais do yoga, como a introdução aos textos, anatomia, fisiologia e dieta, e teoria da comunicação. As práticas do segundo nível reforçam o nível anterior e incluem a prática de ministrar aulas. A importância da componente postural é reduzida em 5% e é reforçado o ênfase dos princípios fundamentais do yoga (Ministry of Ayurveda, Yoga and Naturopathy, Unani, Siddha and Homoeopathy AYUSH, 2016).

Estrutura do nível 1 – grau de instrutor

  • Introdução ao yoga
  • Introdução ao haṭhayoga
  • Introdução ao Patañjali yoga sūtra
  • Introdução aos sistemas humanos, yoga e saúde
  • Yoga para o bem-estar e na gestão do stress
  • Movimento das articulações
  • Purificações orgânicas, saudação ao sol e várias posturas
  • Técnicas de respiração e de meditação
  • Conhecimentos para o ensino e comunicação
  • Competências para ensinar as práticas
  • Competências e princípios para iniciantes
  • Competências para o trabalho com grupos

Estrutura do nível 2 – grau de professor

  • Ensinamentos e filosofias do yoga
  • Teoria do haṭhayoga e principais textos
  • Anatomia humana, dieta e psicologia
  • Competências de comunicação
  • Purificações orgânicas, posturas e saudação ao sol
  • Gestão da energia vital e meditação
  • Práticas do ensino de aulas

Concomitantemente, a Índia afastou-se de uma conceção do yoga como algo meramente físico ou desportivo. A opção eleita foi a de agrupar as atividades de yoga num ministério semelhante aos atuais ministérios da saúde ocidentais, que incluem as medicinas complementares.

Diferentemente do caso espanhol, existiu a preocupação da não obrigatoriedade, pelo menos por agora. Foram criados benefícios para os adesores ao esquema de certificação e uma progressão nos níveis de aprendizagem e profissionalização. A listagem da página do ministério AYUSH contava já, em maio de 2018, com 799 profissionais de yoga certificados pelo governo indiano (Ministry of AYUSH, sem data).

yogaterapia e yoga clínico

O Yoga Moderno: a base da yogaterapia

Uma das formas de designar a prática contemporânea é ‘Yoga Moderno’. Conolly afirma que De Michelis cunhou este termo referindo-se a “certos tipos de yoga que evoluíram principalmente através da interação de indivíduos ocidentais interessados ​​em religiões indianas e um número de indianos mais ou menos ocidentalizados nos últimos 150 anos” (Connolly, 2014, p.213).

A dificuldade de enquadrar o yoga nas categorias epistemológicas e ontológicas das culturas ocidentais resulta precisamente da polissemia do próprio conceito e da perspetiva holística em que o ser humano é considerado ao nível corporal, energético ou etérico e espiritual. Embora o ponto de partida sejam as práticas físicas, as finalidades passam pela terapêutica, no sentido da diminuição do stress e do sofrimento físico e mental. Essa libertação do sofrimento, já no estágio final das práticas, é reveladora de uma emancipação espiritual. A caracterização dessa libertação espiritual – kaivalya ou isolamento –, não reúne consenso nos principais textos indianos existindo, portanto, várias abordagens doutrinais a este tema (Mallinson & Singleton, 2017, p.395).

Segundo a tradição do yoga, a libertação do sofrimento resulta da ignorância acerca da verdadeira essência do Ser. O adepto só se liberta quando consegue ultrapassar os obstáculos mentais, tais como o ego, o apego e a aversão, que o prendem à satisfação dos prazeres mundanos. É natural, no ser humano, a procura de emoções agradáveis e prazerosas (Abhedananda, 2002, p.175). O corpo é o terreno das práticas yoguicas, e a sua importância é manifesta nos textos dos yogas pré-modernos, assim como no empoderamento proporcionado pelas práticas modernas de yoga. A sensibilidade que decorre das práticas é evidente. De facto, “os resultados da prática de yoga são muitas vezes reivindicados a envolver uma maior sensibilidade do corpo e uma maior riqueza de experiência sensorial. ” (Nevrin, 2008, p.125). No início da formação do yoga moderno, o interesse nas práticas posturais era diminuto. As várias posturas do yoga eram consideradas ridículas e foram praticadas por poucos dos pioneiros do yoga moderno (Singleton, 2010, pp.70-80).

Com a emergência do discurso biomédico associado ao yoga, a medicina indiana ayurveda propaga-se no Ocidente e oferecem-se possibilidades múltiplas de conexão com as práticas de yoga, agora do ponto de vista terapêutico e com base num modelo holístico. Embora o Charaka Samhita, um dos mais importantes textos da medicina indiana ayurveda, não se refira diretamente às posturas do yoga, a verdade é que contém referências genéricas ao exercício físico, prescrevendo muitos médicos ayurvédicos práticas de yoga aos seus clientes. As tradições do yoga e do ayurveda, embora diferentes, complementam-se em alguns aspetos terapêuticos (Stiles, 2009, pp.9-13).

A yogaterapia na literatura

Os textos não se referem, efetivamente, à componente terapêutica do yoga, com exceção do modelo holístico previsto no Taittirīya upaniṣad e replicado na Yogavasiṣṭha. Esta última obra sugere um modelo holístico do ser humano. A origem da doença é baseada na teoria dos cinco elementos ou pañcamāyākośa. Vālmiki explica que a doença está relacionada com a intensidade do desejo e a procura do prazer. Entenda-se aqui o prazer como uma potência desmesurada que cria vícios e vínculos de dependência patológica.

 Essa instabilidade ou incompreensão, nas camadas mental e intelectual, origina desequilíbrios ao nível energético. Posteriormente, se essa instabilidade perdurar por um longo período de tempo, podem surgir distúrbios ou doenças no corpo físico, tais como problemas no sistema digestivo e desejo de ingestão de alimentos ou substâncias impróprios, estilos de vida inadequados e desalinhados com os ritmos da natureza, maus pensamentos e bloqueios diversos. O yoga, na sua forma terapêutica, manifesta-se como um sistema eficaz no tratamento e prevenção de doenças psicossomáticas. Constata-se que “muitos centros de yoga em todo o mundo estão oferecendo tratamento para várias doenças. O governo da Índia incluiu oficialmente o yoga como um dos sistemas indígenas de medicina sob o departamento AYUSH. ” (Kumar, 2011, p.107).

Benefícios da yogaterapia

Os tratamentos com base no yoga são benéficos à obesidade, diabetes, asma, hipertensão e muitas outras patologias (Sundaram, 2004, pp. xvii-xviii). O yoga como medicina tem vindo a ganhar dimensão internacional. As práticas são modificadas conforme as patologias, a experiência e a condição do paciente (McCall, 2007, pp.71-73). A eficácia terapêutica não se deve apenas às posturas físicas, uma vez que a prática da meditação também é terapêutica. “As meta-análises mostram que há evidências moderadas de que a meditação nos afeta de várias formas, ao aumentar as emoções positivas e ao reduzir a ansiedade” (Farias & Wikholm, 2015, p.213).

Existem diversas definições de yogaterapia. Poderíamos questionar de que forma as práticas ancestrais de yoga se enquadram na medicina ocidental moderna. Uma das definições em voga, adotada pela instituição norte-americana IAYT, afirma que “…yogaterapia é o processo de empoderar os indivíduos para progredir em direção à melhoria da saúde e do bem-estar através da aplicação dos ensinamentos e práticas do yoga ” (Horovitz & Elgelid, 2015, p.18).

De acordo com Horovitz e Elgelid, ao responder a um estímulo, o sistema nervoso autónomo desencadeia modificações emocionais, mentais e físicas. A definição moderna de stress é diferente da mundividência yoguica. No tratado clássico de yoga, Patañjali yogasūtra, o stress resulta da dicotomia operada pela separação do agregado corpo/mente, que pertence à matéria finita em perpétua transformação, da consciência, que é eterna. No yoga, propõe-se reduzir o stress através da adoção de estilos saudáveis de vida. Contudo, as realidades interna e externa ao indivíduo são duas faces da mesma moeda. A ilusão de que o ser humano é muito diferente do resto do mundo gera stress. Podemos substituir uma vida stressante por outra mais harmoniosa e tranquila através das prescrições do yoga.

Para compreender como as modificações do comportamento e a integração de novos hábitos de vida operam, é fundamental entender com qual dos modelos os yogaterapeuta trabalham com a yogaterapia: o médico ou o educativo. Segundo Elgelid, o yogaterapeuta pode optar por trabalhar com diferentes modelos. O modelo médico sugere que o yogaterapeuta administre a terapia ou o remédio para uma lesão ou doença do paciente. Trata-se de um modelo direcionado e prescritivo, no qual o paciente não tem um conhecimento profundo dos processos em causa. No modelo educativo, é proposta uma abordagem interativa entre terapeuta e paciente. O yogaterapeuta surge como um facilitador que atua ou guia o paciente nos obstáculos internos e ajuda no processo de recuperação de um estado harmonioso que existiu em tempos e que pode ser novamente reencontrado. O modelo educativo inclui a aprendizagem somática. Baseando-se nos trabalhos de Feldenkrais, Mais, Joly e Damásio, entre outros, o autor sublinha quatro aspetos fundamentais da educação somática: o movimento como vitalidade orgânica funcional; a consciência da regulação de atitudes e comportamentos como resultado da interação com o meio ambiente; a aprendizagem como modificação dos padrões neuronais, conducente à autorregulação; e finalmente, o espaço na perspetiva da somatização das ações individuais e relacionais que podem facilitar a autoconsciência do paciente. A escolha dos modelos por parte do terapeuta de yoga, depende de a sua formação prévia ter incidido nas ciências biomédicas ou nas áreas da psicologia, práticas contemplativas ou ciências religiosas. Elgelid conclui que ” um yogaterapeuta bem treinado irá misturar e combinar modelos de acordo com o que funciona”. Assim, o yogaterapeuta deve estar disponível para utilizar qualquer um dos modelos, sendo que, “a longo prazo, o modelo educacional é provavelmente mais efetivo, já que o cliente está aumentando sua autoconsciência” (Elgelid, 2015, p.120).

As relações entre o yoga e a terapia formam a yogaterapia e são sobejamente conhecidas, além de cientificamente comprovadas. A nível da asma, por exemplo, é relatado que de certas “experiências resultou que os praticantes da yoga que sofriam de asma, apresentavam trocas gasosas muito superiores às daqueles que não a praticavam” (Jacquemart & Elkéfi, 1988, p.7). Algumas das práticas da medicina moderna são provenientes de técnicas ancestrais yoguicas, chegando mesmo a ser recomendadas por profissionais de saúde (Devi, 2000, p.1-11). As técnicas de yogaterapia vão desde as posturas, ou āsana, às técnicas de respiração, ou prāṇāyāma, ao relaxamento e meditação, exercícios de purificação orgânica e aconselhamento yoguico, entre outros (Singh, 2013, pp.212-226).

Bibliografia

Abhedananda, S. (2002). Yoga Psychology. Kolkata: Ramakrishna Vedanta Math.

Connolly, P. (2014). A student’s guide to the history and philosophy of yoga (2.a ed.). Sheffield: Equinox Publishing.

Devi, N. J. (2000). The Healing Path of Yoga: time-honored wisdom and scientifically proven methods that alleviate stress, open your heart, and enrich your life. New York: Three Rivers Press.

Elgelid, S. (2015). Yoga, Is It Learning or Therapy? Comparing Medical and Educational Models. Em Yoga therapy: Theory and practice (pp. 110–120). New York: Routledge.

Farias, M., & Wikholm, C. (2015). Como a Meditação Pode (ou Não) Mudar a Sua Vida. Alfragide: Lua de Papel.

Horovitz, E. G., & Elgelid, S. (Eds.). (2015). Yoga Therapy: Theory and Practice. New York: Routledge.

Jacquemart, P., & Elkéfi, S. (1988). Yoga Terapêutica. n.d.: Andrei Editora Ltda.

Kumar, D. (2011). Clinical Yoga & Ayurveda. Delhi: Chaukhamba Sanskrit Pratishthan.

Mallinson, J., & Singleton, M. (2017). Roots of yoga. London: Penguim Classics.

McCall, T. B. (2007). Yoga as medicine: the yogic prescription for health and healing: a yoga journal book. New York: Bantam Dell.

Ministry of Ayurveda Yoga and Naturopathy Unani Siddha and Homoeopathy AYUSH. (2016). Certification of Yoga Professionals Official Guidebook: for level 1 (Instructor) and level 2 (teacher). New Delhi: Excel Books Private Limited.

Ministry of AYUSH. (sem data). List of QCI Certified Yoga Professional. Obtido 26 de Maio de 2018, de http://www.ayush.gov.in/event/list-qci-certified-yoga-professional.

Nevrin, K. (2008). Empowerment and Using the Body in Modern Postural Yoga. Em M. Singleton & J. Byrne (Eds.), Yoga in the Modern World (pp. 119–139). Oxon: Routledge Hindu Studies Series.

Singh, R. H. (2013). The Foundations of Contemporary Yoga & Yoga Therapy. Delhi: Chaukhamba Sanskrit Pratishthan.

Singleton, M. (2010). Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice. New York: Oxford University Press.

Stiles, M. (2009). Ayurvedic Yoga Therapy. Delhi: New Age Books.

Sundaram, Y. (2004). Yogic Therapy. Coimbatore: Yoga Publishing House.

 

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