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Ashtanga Yoga: o Método das Oito Disciplinas

Ashtanga Yoga e Sāṁkhya

Vamos examinar o ashtanga yoga que está no Yogasūtra, mas primeiro é necessário resumir a doutrina do Sāṁkhya para compreendermos melhor a doutrina subjacente à prática deste tipo de yoga. A palavra Sāṁkhya significa enumeração ou contagem.

Assim, a enumeração refere-se à lista dos tattvas, ou princípios da realidade, e à análise desses elementos. Embora as especulações proto-Sāṁkhya surgam nos textos dos séculos anteriores à Era Comum, o mais antigo texto conhecido é o Sāṁkhyakārikā. Este texto é composto por 72 versos, define uma metafísica e uma ontologia que são essencialmente dualistas. Além disso, há dois princípios distintos que formam a realidade: Puruṣa, o princípio da consciência pura, e Prakṛti, o princípio da materialidade. No entanto, quando Prakṛti está num estado não manifestado, as suas três qualidades primárias estão em equilíbrio perfeito. Essas três qualidades são conhecidas como guṇas: sattva (equilíbrio, pureza), rajas (movimento, paixões) e tamas (inércia, escuridão).

Por conseguinte, quando Prakṛti passa por uma mudança de estado e inicia o processo de expansão, os tattvas desenvolvem-se para formar uma realidade material. Contudo, o princípio da consciência pura, que é testemunha, observador e imutável, é ontologicamente distinto da Prakṛti. As principais formas encontradas na literatura para caracterizar os dois princípios são as seguintes:

A Prakṛti (matéria) é inconsciente, ativa, feminina.
O Puruṣa (consciência pura) é consciente, passivo, testemunha, masculino.

Assim, prakṛti e puruṣa são complementares, eternos e reais, sem início nem fim.

Índice do conteúdo

Sāṁkhya e a Mente

O Sāṁkhya elaborou uma teoria da mente como um conjunto tríplice complexo, composto por buddhi (inteligência, discernimento), ahaṁkāra (sentido do eu ou ego) e manas (mente mundana, pensamentos). No entanto, buddhi é a primeira parte da mente a desenvolver-se e representa uma capacidade de funcionamento mais elevada. A buddhi possui uma qualidade sāttvika ou harmoniosa, é o aspeto mental mais próximo da consciência pura ou Puruṣa. Como buddhi está dentro do domínio da Prakṛti, a mente é considerada parte da realidade material. Após a evolução da mente na Prakṛti, o resto da evolução material consiste num movimento dos tattvas, passando de formas subtis para formas cada vez mais densas:

  • Cinco órgãos dos sentidos: buddhindriya
  • Cinco órgãos de ação: karmaindriyas
  • Cinco elementos sutis: tanmātra
  • Cinco elementos grosseiros: mahābhūta

Neste modelo existem 24 tattvas ou elementos que pertencem a Prakṛti, enquanto que o 25º elemento é o Puruṣa, mas está à parte.

Ashtanga Yoga e Ignorância

De acordo com a visão do Sāṁkhya, o principal problema do ser humano reside na ignorância metafísica. A nossa perceção da realidade está equivocada devido a visões distorcidas sobre a essência verdadeira da natureza. Isso resulta numa ligação falsa do conhecimento entre as duas categorias, que são de fato distintas (Prakṛti e Puruṣa). Portanto, o Sāṁkhya é uma filosofia que trata de desenvolver a maneira correta de perceber essas duas categorias (e a natureza do real em geral). 

O Sāṁkhya propõe a investigação racional como forma de libertação pessoal, permitindo que o indivíduo alcance a compreensão de que o Eu é Puruṣa e não Prakṛti. Este método racional inclui raciocínio, reflexão, análise, discussão com as pessoas certas e o estudo de textos da tradição. Em resumo, o objetivo do Sāṁkhya é a separação ou distinção entre a consciência e a matéria.

Ashtanga Yoga de Patañjali

O Yogasūtra de Patañjali é constituído por 195 aforismos ou sūtras, divididos em quatro capítulos, com uma origem que remonta aproximadamente ao século 4 da Era Comum. No entanto, há partes que podem ter uma origem ainda mais antiga. Patañjali pode não ser propriamente um autor, mas possivelmente um editor. Não está claro se essa figura existiu historicamente ou se é um nome utilizado para atribuir este texto a uma tradição já existente.

Há, por exemplo, um outro Patañjali, o gramático, que escreveu o texto Mahābhāṣya no século II da Era Comum. Era comum associar textos da categoria sūtra a autores ou tradições anteriores. Muitos académicos contemporâneos aceitam que o texto é provavelmente uma compilação de sūtras, e ensinamentos de diversas fontes, de vários séculos, com a adição de novo material ao longo do tempo. O Yogasūtra sistematizou os ensinamentos do yoga de maneira coesa e deu origem a uma rica tradição de comentários durante o período medieval subsequente.

O Yogasūtra no Período Contemporâneo

Ao longo dos séculos, o Yogasūtra manteve a sua popularidade, mas experimentou uma mudança de estatuto na época contemporânea. Assim, a partir do século XX, foi adotado por professores de yoga, tornando-se um dos textos centrais no crescimento global da prática. Até aos dias de hoje, continua a ser traduzido para diversos idiomas em todo o mundo.

O Yogasūtra refere o preceito fundamental no sūtra 1.2 – yogaś citta-vritti-nirodhaḥ – que significa “o yoga é a cessação das flutuações mentais”, e propõe a prática (abhyāsa) e o desapego (vairāgya) como importantes meios para alcançar essa cessação. O primeiro capítulo refere formas de prática mental, visando a concentração cognitiva ou a não cognitiva. O segundo capítulo descreve o kriyā yoga, um método composto por três técnicas destinadas a eliminar os estados mentais negativos designados por kleśas, ou aflições, com o propósito de alcançar o samādhi. Essas três técnicas são austeridade (tapas), recitação ou autoestudo (svādhyāya) e entrega a īśvara, um princípio teísta algo ambivalente.

As 8 Disciplinas do Ashtanga Yoga

Além disso, existe o método Ashtanga Yoga – aṣṭāṅgayoga – ou o yoga das 8 disciplinas ou membros, que é referido nos capítulos dois e três. As 8 disciplinas são:

 

  • yama (restrições). Estas restrições são de natureza social ou relacional e incluem ahiṃsa (não violência), satya (verdade), āsteya (não roubar), brahmacarya (celibato/continência) e aparigraha (não cobiçar).
  • niyama (observâncias). Estas observâncias dizem respeito à autodisciplina e englobam śauca (pureza/), santoṣa (contentamento), tapas (ascetismo ou disciplina), svādhyāya (recitação ou autoestudo) e īśvarapraṇidhana (devoção a īśvara).
  • āsana (assento). Aqui, āsana não é postura, mas refere-se a assento, ou seja, permanecer ou ficar sentado. Neste contexto, indica um assento para meditação e enfatiza que tal postura deve ser firme e confortável. Vai precisar de um tapete de yoga.
  • prāṇāyāma (controlo da respiração) Esta disciplina envolve a regulação da respiração e a prática da suspensão da respiração, com variadíssimas maneiras de controlar a respiração.
  • pratyāhāra (abstração dos sentidos). Nesta etapa, as capacidades sensoriais são retiradas do mundo cotidiano, facilitando ao máximo o controlo dos sentidos, o desapego do mundo material.
  • dhāraṇā (fixação mental) Neste estágio, o indivíduo está preparado para os três níveis de meditação, concentrando a mente num único objeto, que pode ser interno, como o umbigo, ou externo, como uma imagem ou objeto.
  • dhyāna (meditação). A concentração mental aprofunda-se ao longo do tempo, tornando-se estável e contínua. A mente entra num estado onde a atenção é plena e flui de forma direcionada e constante.
  • samādhi (concentração perfeita ou ênstase). Nesta etapa de concentração perfeita, a perceção torna-se nítida e focalizada num único objeto, permitindo alcançar níveis mais elevados de consciência.

Além do Ashtanga Yoga

O terceiro capítulo inclui uma lista das habilidades especiais, adquiridas durante a prática de samādhi. Essas capacidades especiais chamam-se siddhis, isto é, perfeição ou realização. Esses siddhis podem incluir formas particulares de conhecimento universal, assim como conquistas sobrenaturais: invisibilidade, controlo sobre os outros e força super-humana.

O quarto capítulo fornece uma explicação mais detalhada sobre a natureza do yoga, que é kaivalya, a separação das categorias ontológicas Prakṛti e Puruṣa, revelando assim a estrutura da cosmovisão Sāṁkhya. Essa perceção culmina no estado final de libertação espiritual. Um dos principais meios para alcançar o estado de kaivalya é viveka-khyāti, o discernimento discriminativo. Isso é a capacidade de distinguir entre a consciência e a matéria para, finalmente, internalizar essa diferença. Assim, ao perceber que a sua verdadeira natureza é Puruṣa, o indivíduo alcança a liberação espiritual e compreende que a consciência não nasce nem morre.

Pratiprasava: a Involução

Outro meio de realização previsto no Yogasūtra é pratiprasava, uma técnica do Sāṁkhya que significa involução. Isto é o oposto do processo de evolução da realidade material. Em termos de prática individual, pratiprasava implica retirar gradualmente os sentidos do mundo quotidiano durante a meditação, até ao ponto em que o praticante começa a dissociar-se das convenções da existência material: a identificação com o corpo, com o eu, com a sociedade, com o ambiente e até mesmo com o tempo e com o espaço. Somente a partir desse estado de isolamento magnífico, que é kaivalya, é possível começar a testemunhar a partir do ponto de vista de puruṣa, a consciência pura. Além disso, é nesta fase que se reconhece que o verdadeiro eu é Puruṣa, eterno e imutável e, portanto, em última análise, não é afetado pelos caprichos da vida cotidiana, pelas aflições mentais nem pelo sofrimento.

Yoga Ashtanga Vinyasa

O yoga ashtanga vinyasa é um estilo de yoga que se baseia nos princípios do ashtanga yoga, mas também incorpora elementos do vinyasa yoga.

  • Ashtanga yoga: O ashtanga yoga é um sistema desenvolvido por Pattabhi Jois. Ele consiste em uma série fixa de posturas (āsanas) que são praticadas numa sequência específica, combinadas com uma técnica de respiração (ujjāyī) e pontos de foco visual (dṛṣṭi). O ashtanga yoga tradicionalmente é dividido em séries progressivas, começando com a série primária (yoga chikitsa) e depois vai progredindo para séries mais avançadas.
  • Vinyasa yoga: O vinyasa yoga é uma prática que se concentra na coordenação dos movimentos com a respiração. A palavra “vinyāsa” significa “movimento sincronizado com a respiração”. Nesta prática, os movimentos entre as posturas são fluidos e contínuos, criando uma sequência que flui suavemente de uma postura para outra. Assim, o vinyasa yoga geralmente não segue uma sequência fixa de posturas, permitindo uma maior liberdade e criatividade na prática.

Portanto, o yoga ashtanga vinyasa combina elementos do ashtanga yoga, como sequências fixas de posturas e ênfase na respiração, com os princípios do vinyasa yoga, como o fluxo contínuo de movimentos coordenados com a respiração. Essa prática pode ser intensa e desafiadora, mas também proporciona uma experiência dinâmica e fluida de yoga.

Ahstanga Yoga

Algumas pessoas escrevem ahstanga yoga, mas a forma correta de escrever é aṣṭāṅgayoga ou ashtanga yoga, sem os diacríticos do sânscrito. Assim, conforme referimos antes, o ashtanga yoga é um sistema de yoga desenvolvido por Sri K. Pattabhi Jois. A palavra aṣṭāṅga do sânscrito significa “oito membros”, referindo-se aos oito membros ou aspetos do yoga descritos nos Yogasūtras.

O ahstanga yoga segue uma sequência específica de posturas (asanas) que são praticadas em uma ordem predeterminada. A prática do ahstanga yoga é caracterizada pelo ritmo dinâmico acompanhado da respiração sincronizada. Os praticantes movimentam-se através das posturas numa sequência fluida, usando uma técnica de respiração, que é profunda e sonora, além de ajudar focar a mente.

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